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Duas horas de debate para o Senado em SP, 46 falas e a conta que a inteligência de dados fez por você

Pegamos a transcrição inteira do debate da BAND com os candidatos ao Senado por SP e transformamos duas horas de fala em três números por candidato: quem respondeu, quem propôs, quem só atacou.

Ilustração do palco de um debate de TV com sete púlpitos e uma rede de conexões luminosas ao fundo

Faltavam poucos minutos para às 11 horas da noite quando o apresentador lembrou, quase de passagem, que o eleitor de São Paulo tem dois votos para o Senado neste ano. Dois terços das cadeiras estão em jogo, é a maior renovação possível da Casa, e ainda assim a disputa some no meio do barulho da eleição presidencial. Quem assistiu ao debate da BAND, Grupo Bandeirantes de Comunicação, na quarta-feira, 9 de setembro, teve quase duas horas para decidir. Sete candidatos, um estúdio, nenhuma cadeira vazia. No fim, muita gente desligou a televisão com a mesma dúvida com que ligou.

O problema não é falta de informação. É excesso de ruído. Foram 46 turnos de fala, divididos em quatro blocos, e a maior parte deles misturou proposta, acusação e memória seletiva no mesmo parágrafo. "Bandido bom é bandido preso." "O PT é o mais corrupto da história do Brasil." "A minha vida não cabe num domingo." Frases que grudam no ouvido e não cabem numa planilha. Foi por isso que pegamos a transcrição inteira do debate e submetemos o material ao nosso pipeline de análise de discurso. A ideia é simples: transformar duas horas de fala em algo que o eleitor consiga ler em cinco minutos.

O que sai do outro lado são três números por candidato. Resposta direta: a pessoa respondeu o que foi perguntado? Densidade propositiva: a fala trouxe projeto concreto ou só diagnóstico? Grau de confronto: a intervenção construiu algo ou serviu para atacar o adversário? Na média da bancada, a resposta direta ficou em 6,9 de 10 e a densidade propositiva em 5,1. Traduzindo: os candidatos até respondem ao que se pergunta, mas transformam isso em proposta menos da metade das vezes.

O padrão fica mais claro no grafo de relações, o mapa das 40 conexões que os sete nomes teceram entre si ao longo da noite. Marina Silva e Simone Tebet passaram o debate se apoiando: as duas defenderam o fim da escala 6x1 sem redução de salário, e Tebet trouxe o dado de um estudo que encomendou ao IPEA quando ministra do Planejamento, segundo o qual o impacto sobre o agronegócio não chega a 1%. Guilherme Derrite e Ricardo Salles se alternaram no ataque à esquerda. E o embate mais longo da noite, entre Salles e André do Prado, não tratou de nenhuma política pública: foram quinze minutos sobre Guararema, merenda escolar, Valdemar da Costa Neto e demissões antigas de ministério. No painel, é justamente nesses trechos que a densidade propositiva despenca e o grau de confronto sobe.

Nem tudo foi ruído. Quando o assunto era concreto, o debate entregou. Derrite defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos e sustentou o argumento com um caso: o ataque à escola de Aracruz, no Espírito Santo, em 2022, em que um adolescente de 17 anos matou uma professora e três alunos, feriu doze pessoas e, pela regra atual do Estatuto da Criança e do Adolescente, cumpriu no máximo três anos de internação. Geraldo Rufino, que chegou a São Paulo morando na rua e trabalhou aos oito anos catando latinha, lembrou que abrir uma empresa no Brasil hoje exige contratar um contador e um escritório jurídico antes de faturar o primeiro real, num processo que leva cerca de 120 dias. Soninha Francini cobrou de Tebet uma resposta sobre as mensagens trocadas entre um ministro do Supremo e um banqueiro no caso do Banco Master, e puxou a conversa para o que o Senado pode fazer: fim da vitaliciedade, prazo curto para decisões monocráticas irem ao plenário, revisão das emendas parlamentares.

Esses momentos existiram. O trabalho da análise de dados é separá-los do resto, para que quem tem dois votos e vinte minutos consiga encontrá-los sem assistir às duas horas de novo.

É aí que a inteligência artificial muda o jogo nesta eleição. Ela não vota por ninguém e não tem opinião sobre quem é melhor. O que ela faz é ler rápido, contar sem se cansar e devolver o debate em forma de mapa: quem respondeu, quem desviou, quem propôs, quem atacou. O painel completo, com a ficha de cada candidato, o grafo de tensões e o comparador lado a lado, está publicado em debatebandsenadosp.netlify.app. A conta já está feita. O voto continua sendo seu.

Parabéns ao Grupo Bandeirantes de Comunicação por, mais uma vez, abrir o espaço. Um debate só de candidatos ao Senado é inédito na televisão brasileira, e colocar sete nomes no mesmo estúdio, sem nenhuma ausência, é serviço público.

Infográfico com o desempenho de cada candidato no debate: resposta direta, densidade propositiva e grau de confronto

Fontes

Publiquei este texto primeiro no LinkedIn, na newsletter Dados e Fatos.

Retrato de Aislan Greca

Cientista de dados, com origem em Relações Públicas. Ajudo organizações a decidir com dados: letramento e IA para quem não é técnico, inteligência com fontes públicas, e a gestão da mudança que faz isso durar.