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Tema: Inteligência com dados públicos

Sem o rastro das bets, quem mede a ludopatia

Ao proibir as apostas de quota fixa em 25 de setembro de 2026, o governo também desligou o Sigap, o sistema que monitorava 25,2 milhões de CPFs e media o comportamento de quem apostava. Apagar o mercado apagou também os dados sobre a ludopatia.

Um celular e uma pilha de documentos com um cadeado sobre a mesa, com um campo de futebol iluminado e vazio ao fundo, sob chuva

A história que a maioria das pessoas acompanhou pelo noticiário pareceu um ato cirúrgico de autoridade moral: com uma canetada em 25 de setembro de 2026, o governo federal extinguiu as apostas de quota fixa no Brasil. Estabeleceu prazos, bloqueou sites, devolveu saldos via rede bancária e recolheu as outorgas. Problema resolvido, publicidade encerrada, vulneráveis protegidos. Fim da história.

Mas os servidores do Ministério da Fazenda contam uma história completamente diferente, e muito mais desconfortável para quem formula políticas públicas baseadas em evidências.

A canetada que desligou as telas dos apostadores não desligou apenas o mercado regulado. Ela desligou o maior instrumento de medição comportamental em tempo real que o Estado brasileiro já construiu. A verdadeira consequência da medida não foi o fim da aposta: foi o apagão de dados sobre quem mais precisa de socorro.

O radar de 25 milhões de brasileiros: o que funcionava nos bastidores

Nos bastidores do Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), a Fazenda processava centenas de milhões de eventos diários. Não se tratava de um portal burocrático de arrecadação, mas de uma esteira analítica de alta granularidade. Ali, o governo sabia exatamente com quem estava lidando: 84 empresas, 193 marcas operando e uma receita bruta de R$ 20,28 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026.

Havia 25,2 milhões de CPFs monitorados. Para abrir uma conta, o usuário passava por biometria facial. A chave Pix precisava bater com a titularidade do cadastro, e filtros automáticos barravam diariamente beneficiários de programas como Bolsa Família e BPC. Quando alguém percebia que o hábito virara compulsão, encontrava um botão centralizado de autoexclusão, acionado por mais de 217 mil pessoas. Em paralelo, a fiscalização derrubava 25 mil URLs ilegais e processava centenas de influenciadores.

Essa infraestrutura permitiu ao Banco Central enxergar, com precisão cirúrgica em agosto de 2024, que 5 milhões de pessoas ligadas ao Bolsa Família haviam transferido R$ 3 bilhões às bets via Pix, a maior parte chefiando lares vulneráveis. O dado incomodava, causava escândalo e gerava manchetes justamente porque existia. Era o rastro digital forçando o debate público a encarar a realidade dos fatos.

O paradoxo da proibição: quando apagar o radar não elimina o avião

Ao decretar o fim do canal oficial, o país não eliminou o hábito; eliminou a telemetria.

A literatura internacional e os dados de órgãos reguladores mostram o que acontece no instante em que um mercado sai da legalidade. Na França, o Observatoire des Jeux constatou que os apostadores empurrados para plataformas não autorizadas apresentam padrões de jogo muito mais destrutivos. Na Holanda, onde a canalização por número de jogadores parece alta à primeira vista, quase metade de todo o dinheiro apostado ainda escorre para operadores ilegais. Na Índia, onde a aposta online é estritamente proibida por lei, o mercado negro acumula 5,4 bilhões de acessos nas suas principais plataformas clandestinas, com jovens de 18 a 34 anos respondendo por 65% desse volume.

A Organização Mundial da Saúde aponta que cerca de 60% das perdas que sustentam o setor vêm de pessoas com padrão de jogo prejudicial. Antes da proibição, esse público deixava rastro, CPF, alerta bancário e histórico no Sigap. Com a proibição, migra exatamente para os sites hospedados em paraísos fiscais, sem biometria facial, sem limite de aporte, sem trava para programas sociais e sem autoexclusão.

Proibir muda o endereço de IP do fluxo financeiro, mas não extingue a demanda.

Da série temporal ao ponto cego estatístico

Com o desligamento da infraestrutura analítica, o Brasil voltou décadas no tempo em termos de monitoramento social. A gestão pública agora retorna à dependência exclusiva de pesquisas amostrais, como os levantamentos pontuais do DataSenado ou do Ministério da Saúde, que mostram fotografias estáticas e tardias de prevalência, mas são incapazes de revelar a dinâmica mensal de risco.

O Brasil legalizou as apostas em 2018, estruturou sua regulação em 2025 e baniu o modelo em 2026. A ironia reside no fato de que todas as justificativas usadas para condenar os impactos sociais do setor só foram possíveis porque existia um ecossistema de dados identificados registrando cada centavo.

A pergunta que ecoa após o silêncio dos servidores não é se o governo consegue retirar os sites oficiais do ar, mas quem vai medir o estrago quando o jogo continuar acontecendo no escuro.

Lições para formuladores de políticas públicas e cientistas de dados

Rastreabilidade não é concessão burocrática, é infraestrutura de proteção: A capacidade do Estado de intervir em comportamentos de risco depende diretamente do rastro deixado pela transação. Sem biometria, vínculo de CPF e conciliação bancária, a política pública perde o sensor que aciona o freio de emergência. Proibições geram cegueira seletiva: O usuário recreativo obedece à regra e deixa de apostar; o usuário compulsivo busca rotas alternativas. Como esse último responde pela maior fatia das perdas financeiras globais, a proibição tem o efeito colateral de ocultar justamente a parcela da população que o Estado pretendia salvar. Amostragem fotografa o passado; séries administrativas medem a crise no presente: Pesquisas declaratórias são vitais para dimensionar o problema em larga escala, mas incapazes de orientar respostas rápidas. Ao desligar a série contínua de registros, o formulador de políticas troca um painel de controle em tempo real por um retrovisor estático. O dado é o primeiro ativo que desaparece na clandestinidade: A regulação técnica de um mercado complexo gera fricção e exige esforço hercúleo de fiscalização, mas mantém o fenômeno sob a luz do escrutínio público. Quando a resposta a um problema complexo é a simples erradicação formal, a demanda não some: apenas o Estado fica cego.

Infográfico de Sem o rastro das bets, quem mede a ludopatia

Fontes

  • Banco Central do Brasil, Estudo Especial nº 119/2024, Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores
  • Tribunal de Contas da União, Acórdão 015.852/2025-3, auditoria operacional sobre prevenção e combate à lavagem de dinheiro por meio de apostas de quota fixa, com o estudo da LCA Consultoria Econômica sobre o mercado ilegal
  • Ministério da Saúde, Nota Técnica nº 4/2025-CORAP/CGESMAD/DESMAD/SAES/MS, com dados do III Lenad
  • Ministério da Saúde, Presidente Lula assina Medida Provisória que proíbe as bets no Brasil (25/09/2026)
  • Ministério da Fazenda, Sistema de Gestão de Apostas (Sigap)
  • IBGE, IPCA, estrutura de ponderação (peso mensal) por grupo, subgrupo, item e subitem, tabela 7060 do SIDRA, agosto de 2026
  • Instituto DataSenado, Pesquisa Panorama Político sobre apostas esportivas, golpes digitais e endividamento, 2024
  • Costes JM, Kairouz S, Eroukmanoff V, Monson E. Gambling patterns and problems of gamblers on licensed and unlicensed sites in France. Journal of Gambling Studies, 2016
  • Spelinspektionen, Channelling level on the Swedish gambling market in 2024
  • Spelinspektionen, Online gambling outside the licensed market
  • Kansspelautoriteit, Monitoringsrapportage online kansspelen, voorjaar 2026
  • Shastry S. Fixing the Odds: A Policy Blueprint for Curbing Illegal Online Gambling in India. CUTS International, 2025
  • Organização Mundial da Saúde, fact sheet Gambling
  • O Globo, Bets tem receita de R$ 20 bi em 2026 e 9 milhões de apostadores por mês; veja retrato do setor (25/09/2026)

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Retrato de Aislan Greca

Cientista de dados especializado em processos de gestão da mudança. Ajudo organizações a decidir com dados: letramento e IA para quem não é técnico, inteligência com fontes públicas, e a gestão da mudança que faz isso durar.